O que é Corretagem de Primeira Linha?

O presente artigo é dedicado à explicação de um dos pontos delicados pontos constantes em contratos de corretagem utilizando a plataforma ECN Currenex. A maioria dos traders conhece superficialmente os aspectos de Corretagem de Primeira Linha (Prime Brokerage) e, apesar de haver alguns que exploram o tema em profundidade, há informações implícitas que não são visíveis à primeira vista. Através das linhas deste texto, tentaremos expor à luz alguns aspectos mais significativos deste tipo de corretagem. A discussão será conduzida através do ponto de vista da Alpari, uma corretora que passou pelo processo completo de acesso ao modelo negocial ECN, desde as primeiras tratativas até o estabelecimento de um regime institucional de corretagem ECN.

Primeiramente, apresentaremos os principais players que formarão o centro da discussão neste artigo.

A Alpari foi fundada em 1998 e atualmente é uma das principais prestadoras de serviços no ramo de online trading ao redor do mundo. Em 2006 o já denominado Grupo Alpari deu início à sua expansão internacional através da aquisição de duas licenças principais: uma Licença FSA para o grupo Alpari UK, com sede em Londres, e outra Licença NFA para a Alpari US em Nova Iorque. O conglomerado abriu escritórios em Dubai, Xangai e outros grandes centros financeiros.

O termo Currenex relaciona-se com um dos maiores sistemas eletrônicos de negociação do mundo, nome o qual recebeu da sua empresa criadora, líder global na prestação de serviços financeiros a investidores institucionais. O sistema é utilizado por grandes bancos e corretoras internacionais.

Corretagem de Primeira Linha

Vamos começar este trabalho analisando como a Alpari organizou-se nos primórdios de sua existência. Para cobrir as operações dos clientes, a empresa abria contas com brokers maiores, depositando dinheiro e cobrindo (hedging) as negociações dos clientes aos melhores preços possíveis. Todavia, o sistema era repleto de incovenientes: o primeiro e mais óbvio relaciona-se com a necessidade de abrir diversas contas em diferentes corretas. Apesar de não ser especialmente difícil, é necessário manter as contas com dinheiro suficiente a todo o tempo, uma vez que não se sabe quando precisará dela. Logicamente, pode-se transferir recursos de uma conta para a outra, mas o processo envolve terceiros, é custoso e – o mais grave – é demorado, algo sério tratando-se de negociações cobertas. Outro problema relaciona-se ao fato de que, mesmo que se consiga abrir uma posição com bom preço, será preciso fechá-la através do mesmo broker sem a garantia de que o preço estará disponível ao tempo do fechamento.

A comunidade financeira nos EUA e Europa percebeu a ineficiência de tal sistema, propondo o desenvolvimento do modelo chamado “corretagem de primeira linha (prime brokerage)”. Trataremos da Alpari UK como exemplo de funcionamento deste sistema. Suponhamos que há um banco considerado um corretor de primeira linha (geralmente apenas grandes bancos, embora possa existir de segundo escalão). A Alpari UK, por sua vez, dirige-se a este corretor e abre uma conta de primeira linha. No entanto, antes de abrir a conta o banco exige uma licença da Alpari UK para prestação de serviços de corretagem. Particularmente a Alpari UK e Alpari US possuem respectivamente as licenças FSA e NFA. É preciso frisar que as licenças conseguidas em ilhas e e por outros órgãos não reconhecidos internacionalmente são de pouca importância para este caso. De fato, este é o primeiro filtro às corretoras, algo que nem todas conseguem passar. O próximo ponto de interesse para o banco corretor é saber o volume de mercado atingido pela corretora, uma vez que não é conveniente para o banco corretor abrir uma conta que não gerará um fluxo constante de comissões. Corretoras de baixo volume negocial são rejeitadas de pronto ou têm suas contas encerradas quando o desempenho de seus negócios fica aquém das expectativas. Dessa forma, o volume de mercado, que representa o segundo filtro para corretoras com potencial, implica em uma base de clientes suficientemente larga para atingir volumes de transações suficientes. Em termos gerais, referimos a bilhões de dólares por mês.

Vejamos o modelo de corretagem de primeira linha (figura 1):

A Alpari UK assina um contrato com o banco e abre uma conta de primeira linha. Uma das exigências estabelecidas é que o saldo da conta não poderá ser menor do que 10 milhões de dólares. O banco, por sua vez, dá acesso à Alpari aos grandes provedores de liquidez.

Neste esquema, a Alpari afirma querer trabalhar com dois bancos, que chamaremos neste exemplo de Banco 1 e Banco 2. Sendo assim, chega-se a um acordo de três vias entre a Alpari, o banco corretor (BC) e o Banco 1, bem como entre a Alpari, o banco corretor (BC) e o Banco 2. A Alpari também ganha acesso ao terminal negocial, caso deseje negociar manualmente ou a um API (application program interface) para negociação automatizada.

Modelo de Corretagem de Primeira Linha

Como então uma negociação é realizada? Se a Alpari ve um preço favorável com o Banco 2, envia um pedido de compra, o qual é realizado por ele, recebendo deste uma confirmação da execução. A Alpari assim envia um comprovante da transação para o BC, indicando a data de execução, o volume, etc. O BC compara as informações provindas de ambas as partes. Se tudo estiver conforme, a transação é confirmada e a Alpari ve os resultados em sua conta. Uma porcentagem deve ser reservada à margem para negociações com alavancagem.

Vamos supor portanto que estamos prontos para fechar a posição e vemos que o Banco 1 fornece um preço mais favorável. A Alpari pode fechar a transação com o Banco 1, todavia assim como antes, a transação ja foi “informada” para o BC e será exibida na conta da Alpari com este banco. O que realmente acontece é que a Alpari realizou a compra a partir do BC que simultaneamente comprou do Banco 2 e vendeu à Alpari.

O que então ocorre para os participantes deste sistema? Primeiramente, o BC cobra comissão pela transação. O valor de tal comissão depende de uma série de fatores, incluindo o volume negocial da empresa. O BC também pode alocar recursos no saldo da Alpari em concessão à produtividade da conta, como outros bancos fazem nas contas de seus clientes. A Alpari, por sua vez, tem acesso a outros grandes bancos – mercado mais líquido em outras palavras – podendo abrir e fechar posições com diferentes bancos sem a necessidade e movimentar recursos entre contas diferentes. Além disso, a Alpari pode realizar transações com o próprio BC sem necessidade de pagar comissões extras. Os Bancos 1 e 2 têm a possibilidade de transacionar com o BC sem incorrer em riscos de involvimento direto, uma vez que o BC garante as posições expostas ao mercado de risco.

Este arranjo é vantajoso para qualquer corretora suficientemente bem estabelecida e capitalizada.

Currenex

Vamos ver agora como funciona o sistema Currenex.

Apesar de haver muita informação imprecisa a respeito deste sistema, e de muitos especialistas não compreenderem bem da onde provêm as cotações fornecidas, na verdade o sistema Currenex é apenas um fornecedor de tecnologia, provendo acesso à ECN através de seus servidores e plataforma negocial.

Vejamos em detalhes. Supondo que a Alpari chegue a um acordo com a Currenex, esta dirige-se ao BC para fechar um acordo de envio direto de confirmações das transações realizadas pela Alpari, que, por sua vez, provê à Currenex a lista dos bancos com os quais trabalha, de modo a serem conectados em uma rede Currenex.

O diagrama 2 demonstra este arranjo:

Como funciona o Currenex

Os bancos fornecem cotações ao sistema segundo o Protocolo FIX. As cotações são formadas com base em diversos preços, dependendo do volume.

Por exemplo: O Banco 1 afirma estar disposto a comprar entre 0 e 1 milhão de EURUSD a um câmbio de 1,5000/ 1,5001 e vender de 1 a 3 milhões de EURUSD a 1,4999/1,5002. Uma vez que é mais difícil de movimentar grandes volumes, entre 3 e 10 milhões o preço de compra pode, por exemplo, permanecer em 1,4999, enquanto o preço de venda será maior, por exemplo 1,5003. Ocorre que, ao contrário do que se pensa – “os maiores volumes são vendidos com um desconto”, os bancos não fornecem um preço melhor para um volume maior, devido à dificuldade no processamento de altos volumes. Volumes menores, por outro lado, são mais fáceis para o banco para processar internamente.

Naturalmente, transações envolvendo grandes volumes implicam riscos maiores para o banco, fato que o obriga a distribuir largos montantes de recursos entre diversos bancos. Isto tende a ser uma desvantagem para, uma vez que nestas transações são cobradas comissões, tornando os preços mais altos. Este modelo ocorre oara todos os bancos, seja pequenos ou grandes. A única diferença é o nível de risco. Isto justifica também o fato da maioria dos corretores cobrar um spread maior ou ofecerer execução a condições menos favoráveis em grandes transações. Note-se que, se o corretor não for a instituição que realiza o descrito acima, as posições dos clientes não estão asseguradas, o que pode ocorrer em não execução ou até mesmo a falência do corretor.

Formação de Cotas no sistema Currenex

Como resultado, quanto mais bancos forem envolvidos, mais liquidez fluirá para o sitema e melhores serão as cotações para o cliente.

A corretora que se utiliza do método acima paga comissão que se divide em duas partes distintas: àquela paga ao BC e outra paga ao Currenex. Logicamente, esta comissão é repassada aos clientes. Como regra geral, os clientes que trabalham com Currenex pagam taxas mais altas por negociações com menores spreads. A corretora paga uma comissão menor porque apenas gerencia o dinheiro dos clientes. A diferença entre o que ela paga e a quantia paga pelos clientes é o lucro da empresa. Esta disparidade não é grande, logicamente, todavia quando há um grande número de transações a elevados volumes, o valor se agrega consideravelmente.

É, portanto, do interesse do corretor que o cliente realize negociações bem-sucedidas. Quanto mais operações realizar, tanto em termos de volume ou quantidade, mais comissões o corretor receberá. Assim, manter clientes em constante atividade por longos períodos é de total interesse do corretor. Por outro lado, traders com poucos recursos tendem a durarem pouco no mercado, o que gera por consequência menos renda ao corretor. A baixa lucratividade gera a necessidade para o corretor de melhorar as condições de negociação e de atração de clientes institucionais abastados através de comissões reduzidas e outras ofertas particulares.

Sobretudo, pelo visto acima, os modelos de corretagem ECN estão provando ser o futuro em termos negociais. Os modelos mais antigos, baseados no desagradável conflito de interesses entre corretor e cliente, onde os ganhos do clientes saem do bolso do corretor, estão sendo extintos. A corretagem de primeira linha enxerga os grandes e bem-sucedidos clientes não como uma ameaça, mas como uma fonte estável de lucros e renda.

É evidente que nem todos corretores cumprem os requisitos para trabalhar com este sistema, mormente aqueles relacionados à licença, capitalização e base de clientes, criando barreiras difíceis de transposição a muitos. Esse fato explica o por quê de poucos corretores utilizar o sistema Currenex – muitos brokers de segunda linha não possuem capacidade para fazê-lo. A experiência mostra que tais brokers vêm trabalhando em tandem com outros corretores de maior capacidade. Todavia, este arranjo adiciona à cadeia outro intermediário, refletindo em condições menos favoráveis para o cliente.

Com isso, é necessário ainda dissipar um grande mito sobre ECN: o de volume mínim de negociações. Convencionalmente, o volume mínimo de negociação é 40.000 unidades de moeda base. Os bancos, todavia, estão prontos a processar ordens bem menores, na ordem de 1.000 unidades. A Alpari negociou com seus bancos e o sistema Currenex a possibilidade de se transacionar 10.000 unidades. Após a condução de uma série de testes com tais parâmetros, os resultados alcançados foram satisfatórios tanto para os bancos quanto para o Currenex, de forma que a Alpari estabeleceu este mínimo para seus clientes. Dada a natureza automatizada das transações digitais (há um mínimo estabelecido no mercado interbancário em Forex), os bancos não perdem em processar pequenos volumes.

Compartilhar:

Outros artigos de interesse